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A Copa do Mundo e o Jogo da Escuta, por Rachel Camara

  • há 4 dias
  • 3 min de leitura

Imagem Ilustrativa. Reprodução Internet.
Imagem Ilustrativa. Reprodução Internet.

Por estes dias, 2026 começa a ganhar as cores da Copa do Mundo. As vitrines se vestem de verde e amarelo, os produtos temáticos ocupam as prateleiras e, pouco a pouco, o país entra naquele clima tão característico que só o futebol é capaz de despertar. É tempo de reunir pessoas, compartilhar expectativas e discutir aquilo que, para muitos brasileiros, parece assunto de Estado: quem deve ou não ser convocado para vestir a camisa da seleção.


Antes mesmo do apito inicial, surgem os debates. Especialistas, torcedores apaixonados, críticos e curiosos apresentam suas opiniões sobre a melhor escalação, a estratégia ideal e os nomes que merecem uma oportunidade. Cada argumento parece carregado de convicção. E é justamente nesse cenário que uma questão me chama a atenção.


Por que é tão difícil conversar sobre aquilo que pensamos?


A pergunta ultrapassa os limites do futebol. Ela se estende à política, à religião, à educação, à cultura, à filosofia e a tantos outros temas que fazem parte da vida em sociedade. Em um mundo cada vez mais conectado, onde a tecnologia ampliou vozes, deu visibilidade a diferentes grupos e permitiu que mais pessoas fossem ouvidas, parece que ainda enfrentamos uma grande dificuldade: a de ouvir.


Aprendemos a falar. Aprendemos a publicar. Aprendemos a comentar. Mas será que aprendemos a escutar?


A convivência humana pressupõe diferenças. Somos formados por histórias, experiências e referências distintas. Naturalmente, veremos o mundo por perspectivas diferentes. Ainda assim, seguimos transformando opiniões divergentes em disputas pessoais, como se a discordância representasse uma ameaça e não uma oportunidade de crescimento.


Talvez por isso discussões sobre um jogador, um líder político, uma crença religiosa ou uma ideia educacional sejam capazes de provocar conflitos tão intensos. Não se trata apenas do tema em si. Trata-se da dificuldade de reconhecer que o outro possui o direito de pensar de maneira diferente.


Na educação e no desenvolvimento humano, aprendemos que o diálogo é uma das competências mais importantes para a construção de relações saudáveis e democráticas. Dialogar não significa concordar com tudo. Significa reconhecer a legitimidade da existência do outro. Significa compreender que ouvir não é um sinal de fraqueza, mas de maturidade.


Curiosamente, o futebol pode nos ensinar muito sobre isso.


Em campo, nenhuma equipe vence sozinha. O espetáculo só acontece porque existem diferentes jogadores ocupando diferentes posições, cada qual contribuindo com suas habilidades. O atacante depende do passe. O goleiro depende da defesa. O talento individual só alcança seu potencial máximo quando colocado a serviço do coletivo.


Fora dos gramados, entretanto, muitas vezes jogamos outra partida. No jogo das conversas e dos relacionamentos, parecemos correr apenas em direção à vitória pessoal. Interrompemos, atropelamos argumentos, disputamos razão e tentamos convencer a qualquer custo. Em vez de construir pontes, erguemos barreiras.


Talvez o maior desafio da nossa geração não seja tecnológico, econômico ou mesmo esportivo. Talvez seja humano. Precisamos reaprender a escutar.


Escutar com respeito. Escutar com curiosidade. Escutar sem a obrigação de responder imediatamente. Escutar para compreender, e não apenas para rebater.


A Copa do Mundo sempre me traz lembranças alegres: os gols, as comemorações, os abraços, as buzinas ecoando pelas ruas. Mas, neste ano, ela também me inspira uma reflexão mais profunda. Enquanto celebramos atletas capazes de correr, driblar e acertar com precisão o centro das traves, ainda tropeçamos em habilidades muito mais fundamentais para a vida em sociedade: o respeito, a empatia e a escuta.


Talvez esteja aí a grande lição. O verdadeiro desenvolvimento humano acontece quando entendemos que a convivência não é uma competição. É uma construção coletiva.


E, assim como no futebol, os melhores resultados surgem quando aprendemos a jogar juntos.

 
 
 

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